Em um trecho da Carta VII, Platão trata
de sua teoria do conhecimento. O próprio filósofo admite que o assunto pode ser
difícil de ser entendido, e por mais obscura que tenha sido sua explicação, uma
coisa é certa: mesmo na Carta VII, Platão deixa claro que o verdadeiro
conhecimento se dá no intelecto, isto é, no mundo inteligível e o que nos
guarda o mundo sensível são apenas as opiniões.
Na República, Platão trata mais
detalhadamente a questão do conhecimento, mas dessa vez, por meio de três
alegorias: “Alegoria do Sol”, “Alegoria da Linha” e a famosa “Alegoria da
Caverna”. Trataremos aqui somente das duas primeiras. Antes de iniciar é
importante frisar que, na República, o personagem central da obra é Sócrates.
No entanto, sempre que me referir a alguém, vou me referir à Platão, não à
Sócrates. Pois como todos sabem, existem inúmeras controvérsias no que diz
respeito ao Sócrates de Platão.
Alegoria Do Sol
Platão começa tratando dos nossos
sentidos, ressaltando que todo sentido (inclusive a visão, que segundo ele,
fora feita pelo Demiurgo com mais “esmero” que os outros sentidos) necessita de
um terceiro elemento além dele próprio e do objeto para que funcione direito.
Para a visão, por exemplo, seria a Luz (o Sol). Ao olharmos para um determinado
objeto, só conseguimos o enxergar em função da luminosidade, do contrário, se
não houvesse luz nós nada conseguiríamos ver.
Em caso semelhante, mas dessa vez no
plano inteligível, o que possibilita que conheçamos as coisas e que enxerguemos
a verdade é a ideia do Bem. O Bem
fornece a verdade ao sujeito cognoscente que contempla as ideias, tal como o Sol fornece a luz para que o sujeito
enxergue os objetos no plano visível.
Enfim, no mundo concreto o Sol é o que
dá a possibilidade de ver, tornar as
coisas visíveis para que assim possamos conhecer,
ao passo que no campo da vida, torna as coisas possíveis. Novamente observamos
a questão da prática nas ideias de
Platão. Mas o Sol é o Bem, e o Bem não pode ser nada de concreto, pois está
além do mundo visível. Então o Bem nos dá a verdade de nossos conhecimentos e
nos dá a “concretude de nossa existência” sem que ele mesmo seja o conhecimento
ou mesmo a existência, pois está além de tudo isso.
O Bem, então, é o fim. Não há nada além
do Bem, ele é o limite de nossas ações, isto é, ele é o limite do conhecimento
do homem. Depois das Alegorias do Sol e da Linha, Platão vai tratar na Alegoria
da Caverna, a “ascensão” intelectual do homem até atingir o conhecimento das Formas por meio da educação (paideia). Para se atingir o Bem, é preciso a contemplação das
Formas, e mesmo depois, não é possível traduzir esta contemplação em um
discurso, já que a fala tal qual a escrita acabam por “corromper” o que foi
contemplado. Essa ascensão do homem começa então no Conhecimento Empírico (dos
fenômenos) e termina na contemplação das Formas.
Alegoria da Linha
Se na Alegoria do Sol Platão fez a
divisão entre visível e inteligível, na Alegoria da Linha é onde o filósofo vai
fazer a divisão das divisões, ou seja, ele vai dividir em duas partes tanto o
mundo visível quanto o inteligível. Para melhor explicar isso, o filósofo vai
dizer: “Supõe então uma linha cortada em
duas partes desiguais; corte novamente cada um dos segmentos segundo a mesma
proporção, o da espécie visível e o da inteligível.” (A República – VI 509e)
Começamos então do mais baixo segmento,
o da Imagem. O segmento das Imagens está presente dentro do mundo visível,
sendo essas os reflexos no espelho, reflexo na água e as sombras. Acima da
Imagem estão os Objetos sensíveis. Estes objetos são todas as coisas que
conseguimos visualizar na natureza, ou seja, as plantas, as pedras e assim por
diante. A imagem é meramente o reflexo ou a representação desse Objeto.
Lembrando que ambos estão no campo do visível. É própria do mundo visível a
Opinião (doxa), pois como já foi
visto antes, o conhecimento empírico só nos fornecem dados “crus”, isto é, nós
não chegamos a fazer uma investigação intelectual daquilo, coisa que só ocorre
no campo do inteligível.
A outra metade da linha que corresponde
ao mundo inteligível tem como primeiro segmento a Razão, onde estão os entes
matemáticos e é onde se dá o Entendimento. E por fim, o último e mais elevado
segmento é onde estão as Ideias, as Formas, o Belo. É aí que se toma a
consciência. E é própria do mundo inteligível a Ciência e a Dialética. Neste
ponto, a consciência não se serve de dados provindos do mundo visível, passando
diretamente de ideia para ideia, fazendo exatamente esse movimento dialético. É
aí que ocorre a contemplação e onde é obtido o conhecimento verdadeiro.
Neste momento do texto, logo no final do
Livro VI, Platão (na figura de Sócrates) nos aconselha a aplicar as quatro
operações da alma – Inteligência, Entendimento, Fé e Suposição – nesta ordem de
forma decrescente aos quatro segmentos: “Pega
agora nas quatro operações da alma e aplica-as aos quatro segmentos: no mais
elevado, a inteligência, no segundo, o entendimento; ao terceiro entrega a fé,
e ao último a suposição.” (A República – VI 511e).
.jpg)



