
O Secretário
Florença, 15 de Junho de 1498, aos 29 anos, Nicolau Maquiavel inicia sua vida pública como secretário da segunda Chancelaria da República florentina. Não demora a ingressar no “Dez de Liberdade e de Paz”, encarregados principalmente no contato com os representantes florentinos em outros países.
Depois de quatorze anos de ardilosos serviços como secretário florentino, após o cumprimento de devotadas missões, Florença que havia restabelecido a República, novamente sofre uma alteração de regime, no ano de 1512. Maquiavel, sendo funcionário da República, perde todas as suas funções e é banido de Florença.
A partir desse momento, Maquiavel passa a viver em sua casa de campo nos arredores de Florença, passando por inúmeras dificuldades e definhando em tédio e melancolia. Porém, começa a escrever uma série de obras, entre elas: “Discursos”, “História de Florença”, “Tratado Sobre a Arte da Guerra” e por fim, sua célebre obra “O Príncipe”, ou, “Dos Principados”.
O Pensador
Nicolau Maquiavel é considerado o fundador do pensamento político moderno, isso por que não escreve sobre uma política utópica ou como ela deveria ser, mas se digna a escrever sobre a política da forma como ela é. Escreve sua célebre obra, o Príncipe, no momento em que percebe certa distância entre a realidade política de sua época e o verdadeiro ideal de política.
No pensamento antigo, a política era relacionada à Ética, independentemente da corrente filosófica na qual o pensador pertencia, seu pensamento político sempre era voltado de alguma forma para a Ética. Já na Idade Média, a tendência continua a mesma, mas dessa vez a política é voltada a uma ética acrescida de valores cristãos.
Mas Maquiavel enxerga a política de outra forma, onde a ação política não cabe aos limites do juízo moral, e que por sua vez, o Estado, deve tomar suas decisões de acordo com a lógica do poder. E ainda mais, a política não teria como objetivo o bem comum, mas sim exclusivamente a manutenção do poder. Sendo assim, o poder político tem como função regular as lutas entre as classes sociais: os poderosos e o povo.
Não é a toa que seu nome, Maquiavel, se tornaria sinônimo de sagacidade, astúcia e pessoa sem escrúpulos políticos, ao ponto de hoje em dia a palavra “maquiavélico” estar presente na imaginação das pessoas como algo ligado à extrema maldade.
O Príncipe
Maquiavel escreve “O Príncipe” numa tentativa de reaver sua vida pública, dessa forma focando sua obra aos Médici. Pensava que talvez, ao mostrar sua obra à Giuliano de’ Medici, este ficaria satisfeito em retomar os serviços de Maquiavel. Mas logo ficaria evidente que seu plano não daria certo, e novamente cai no desgosto. Mas é a partir deste pequeno tratado político que Maquiavel ganhará sua fama postumamente como grande pensador.
“O Príncipe” é escrito na forma de um manual, dividido em 26 capítulos, contendo todo o pensamento político inovador de Maquiavel, que, como dito anteriormente, não se preocupa em se ater com teorias ideais sobre política, mas sim, demonstrar a realidade dos fatos.
Encontramos neste tratado, todo o conteúdo que depois fora expresso com uma única frase: “Os fins justificam os meios”. Isso porque, Maquiavel certifica-se de expor todas as possibilidades para que o Estado seja bem sucedido, mesmo que para isso seja preciso o uso da crueldade. Por exemplo, quando deixa bem claro que a crueldade bem usada é aquela feita para a segurança do Príncipe.
Maquiavel também alerta sobre o perigo de utilizar das maldades a cada dia, ao invés de uma única vez todas juntas (o que seria o correto segundo ele), e que nesse primeiro caso, o Príncipe correria grande risco de perder a confiança de seus súditos. Assim como se fala da crueldade, também se fala dos benefícios para com o povo. Nesse caso, o benefício deverá ser feito pouco a pouco, para que estes sejam melhores aproveitados.
Outro aspecto muito importante que fica bastante destacado no pensamento de Maquiavel é a questão da dissimulação do Príncipe. Segundo o pensador, o Príncipe por sua vez, não tem a necessidade de cumprir com a palavra dada caso essa promessa venha a lhe fazer mal. Na realidade, Maquiavel diz que houve Príncipes, que mesmo não cumprindo com sua palavra, fizeram grandes coisas. Dado que um Príncipe necessite manter sua integridade, mas ao mesmo tempo não é de todo mal que não cumpra com a palavra, como fazer para que sua imagem não seja danificada? Manter a aparência com a astúcia, isto é, não se faz necessário que o Príncipe seja tudo aquilo que se diz, mas sim, que pelo menos aparente ser.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CHEVALLIER, Jean-Jacques. As Grandes Obras Políticas de Maquiavel a Nossos Dias. Rio de Janeiro: Agir, 1986.
SKINNER, Quentin. Maquiavel. São Paulo: Editora Brasiliense, 1988.
MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe (Coleção Os Pensadores). São Paulo: Editora Nova Cultural, 2004.
BLACKBURN, Simon. Dicionário Oxford de Filosofia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1997.
Nenhum comentário:
Postar um comentário