UM POUCO SOBRE SUA VIDA
De início, é importante frisarmos que a filosofia de Kierkegaard é sem sombra de dúvidas o reflexo de sua vida pessoal. Não que isso não aconteça com outros pensadores, mas no caso de Kierkegaard é algo crucial, de extrema importância. Para entender sua filosofia é importante sabermos um pouco sobre sua vida.
Kierkegaard nasceu em 1813, na cidade de Copenhague, Dinamarca. Apesar da carreira de pastor ter sido algo quase que “inevitável” em sua vida, sua preferência pela vida boêmia e o convívio social sobressaíram sobre o caminho da vida religiosa. Isso porque seu pai, cristão protestante, seguia de maneira pontual e até rigorosa demais os costumes da religião. Em função disso, Kierkegaard carregara consigo um forte senso religioso.
Após a morte de seu pai no ano de 1837, Kierkegaard cria laços com uma jovem chamada Regine Olsen. Na realidade, Regine será o pivô de toda a Angústia de Kierkegaard, que por consequência, será a base principal de seu pensamento. Toda essa reviravolta ocorre quando Kierkegard começa a se indagar se era realmente merecedor do matrimônio. Fica tão obsecado com isso, que resolve desatar os laços com Regine.
Tirando o fato de ter ficado absurdamente atormentado pela separação de Regine, Kierkegaard ainda acreditava que uma maldição pairava sobre sua família, desde que uma vez ouvira seu pai confessar - certa vez, enquanto embriagado – que já havia amaldiçoado a Deus quando jovem. Além de todos esses acontecimentos, Kierkegaard ainda possuía uma característica determinante para que todos esses fatos virassem um grande vulcão em erupção na sua vida: a extrema melancolia.
Por vezes, Kierkegaard ainda tinha de conviver com os escárnios por parte das outras pessoas. Isso porque não media o teor ácido e altamente provocativo de seus escritos. A partir daí, Kierkegaard começa a se utilizar da escrita para expurgar tudo aquilo que sempre o assombrou, mas que ao mesmo tempo instigava a sua curiosidade. Vai criticar a religião, chegando ao ponto de acusá-la de heresia. E sem perder a agressividade na qual acusara a religião, vai escrever sobre o desespero, sobre o estranhamento de si e do mundo, e sobre a angústia.
A FÉ E O CONTATO COM DEUS
Pode-se dizer que a filosofia de Kierkegaard começa primeiramente na crítica que fez com base no contraponto existente entre seu pensamento e o pensamento de Hegel. O problema para Kierkegaard está no sistema proposto por Hegel, e pelo fato do indivíduo se explicitar unicamente por ele. Sendo assim, o sujeito particular será explicado pelo geral. A conclusão disso é que, para Kierkegaard, Hegel ao criar seu sistema harmônico racional acaba por anular o homem como indivíduo.
Mas o que mais interessa Kierkegaard não é criticar propriamente o sistema elaborado por Hegel, mas sim definir o homem como um ser individual. Para Kierkegaard, a individualidade do homem é a solidão na qual ele desenvolve a partir do momento que toma a consciência de que é um ser finito perante um ser infinito. E este homem, que agora tem a consciência de sua “finitude”, deve, portanto entender que o seu estado de “indivíduo limitado” na realidade é parte de algo ilimitado.
Seguindo por esse caminho, agora que o homem já está posto como “individual”, tem consciência de sua finitude e de que faz parte de uma totalidade onde o sentido é o infinito (Deus), ele se depara com um fenômeno no qual nenhum sistema consegue explicar. Para Kierkegaard, esse fenômeno é um modo de existir do homem. Esse fenômeno se chama Fé.
A partir da Fé, o homem entra em contato com o divino, e não só com o divino, mas também com todo o absurdo paradoxal que envolve a Verdade cristã. Temos como mediador entre o homem e a Verdade (Deus) a figura de Jesus Cristo. Toda a noção cristã da Verdade parte daí, isto é, dependemos de um homem nascido à muito tempo, no qual a vida permanece obscura até hoje e que foi morto crucificado. Sendo Cristo a figura da compreensibilidade do homem sobre si mesmo, e este mesmo sendo um personagem obscuro a nós, como podemos então alcançar a Verdade?
Pois então é pelo Absurdo que entramos em contato com o divino, isto é, com a Verdade. Não há outra forma de mantermos contato com a Verdade senão pela nossa subjetividade, nosso olhar interno, já que o homem está impregnado pela culpa e é preciso que a vivencie. É dessa maneira que contatamos a real redenção de Cristo, pela vivencia da culpa, pois é por essa vivência que Cristo se faz presente, isto é, a mediação entre o Homem e a Verdade.
A ANGÚSTIA PERANTE A LIBERDADE DE ESCOLHA
O homem em contato com Deus, tendo consciência do divino, vive apoiado na religião, pois é a forma que encontra para manter o contato com o infinito. Porém, a religião possui conceitos e costumes nos quais servem para encobrir todos os aspectos violentos da própria religião, e também para mascarar toda a angústia que a fé acarreta.
Essa angústia na realidade é necessária, isto é, ela surge do desligamento que o homem sofre ao se voltar para a fé. Ao se deparar diante de escolhas a serem feitas, sendo essas coligadas ao infinito em que ele está voltado, o homem sente o vazio da indecisão e o fato de que a escolha deverá ser feita. Kierkegaard demonstra essa situação utilizando como exemplo o sacrifício que Deus exige a Abraão:
“Depois desses acontecimentos, sucedeu que Deus pôs Abraão à prova e lhe disse: “Abraão!” Ele respondeu: “Eis-me aqui!” Deus disse: “Toma teu filho, teu único, que amas, Isaac, e vai a terra de Moriá, e lá o ofereceras em holocausto sobre uma montanha que eu te indicarei.” (GÊNESIS, 22: 1-2)
Abraão se vê diante do inexplicável, de forma que uma escolha entre duas possibilidades dadas por Deus seria inevitável. Mas é preciso frisar que essa escolha não é uma escolha moral. A importância dessa escolha não está relacionada com família ou valores. O que está em jogo é a fé de Abraão, é o homem finito perante às exigências do ser infinito.
Apesar da Liberdade de Escolha que Abraão possui, sua opção não é das mais fáceis. Pois, uma vez não atendendo as ordens de Deus, e poupar Isaac – e ele próprio - do sacrifício, ficará comprovada a sua pouca Fé, ou em outras palavras, a sua infidelidade perante Deus. Por outro lado, ao levar seu filho Isaac até o altar e consumar seu sacrifício, sua Fé e relação com Deus estarão comprovadas como verdadeiras.
Eis que a Angústia surge na liberdade de fazer a escolha. Mesmo que se consumasse o sacrifício, apesar de sua Fé estar segura à si próprio e à Deus, ainda assim continuaria a carregar o fardo de ser um assassino cruel, no qual assassinara o próprio filho.
Percebemos o dilema que surge de ambos os lados então: se firma na Fé sacrificando o Próprio filho, sendo considerado um assassino pelas leis morais dos homens; ou poupa a vida de seu filho, provando então o seu descaso perante Deus. E para Kierkegaard essa ambiguidade nunca deixa de existir, ela é própria do homem, ela é própria da Angústia.
(Este trecho foi retirado da monografia referente ao meu TCC do curso de Filosofia entitulado: "Angústia e Medo: na Arte, na Filosofia e na Sociologia")


