Eu não me entendo, e como poderia? Não
sou mais que uma ínfima existência em meio a um mar de estrelas, antigas e
novas, e que ainda estão por nascer. Em meio a tudo isso, sou obrigado a fazer
certas escolhas no decorrer da minha curta vida. Em alguns casos, essas
escolhas não dependem somente de mim, mas também de uma série de eventuais
detalhes. Quem nunca precisou fazer algo que não queria? Esse não querer pode
ter origem na hierarquia familiar, como o pai e a mãe que mandam o filho fazer
as coisas que eles julgam melhores. Ou pode também ter origem no convívio
social em que o indivíduo está inserido e fadado a manter, como por exemplo, no
trabalho. E veja que chato, nesse caso também a hierarquia entra em ação, com o
seu chefe.
Mas voltando ao foco do texto, estou
tratando aqui na realidade de algo muito maior do que o simples ato de obedecer
ao chefe, o pai ou a mãe. Estou tratando aqui absolutamente do “religare”, isto
é, do nosso lado religioso. Mas tenha calma, pois não estou tratando aqui da
religião no sentido que estamos acostumados a conhecer, a religião como
instituição.
A religiosidade vai muito além da
religião. A religião é algo que o homem cria na intenção de fazer certo contato
com o divino, ou em outras palavras, a religião é uma ferramenta, esboçada
conforme a cultura de determinados povos, no intuito de tentar alcançar seres
exteriores e superiores a nós. Na pré-história e na antiguidade, a religião
servia como um tipo de explicação para fenômenos naturais que estavam além da
compreensão do homem. Atrevo-me a dizer que a religião, até certo ponto, servia
como uma ciência para as civilizações. Prova disso é o fato de inúmeras
ciências terem tido suas raízes em costumes e ritos religiosos. A Alquimia, por
exemplo, que mais tarde deu origem à Química.
Depois disso, a religião tomou outro
formato, tendo suas raízes em escrituras e transferindo, muitas vezes, uma
parte do poder de suas entidades divinas ao próprio homem. Que é o caso dos
profetas e dos santos, por exemplo. Desde então, a religião pode ser utilizada
também como uma ferramenta não só para explicar os fenômenos da natureza, mas
também (e principalmente) para manipular grandes massas. A palavra “manipular”
pode parecer um pouco indigesta para alguns leitores, mas na realidade, não
estou querendo atribuir um caráter absolutamente ruim às religiões, apenas
estou pontuando a minha visão no que se refere ao andamento histórico delas.
Mas vou deixar para falar sobre as religiões em si em outra oportunidade.
Estou escrevendo esse texto justamente
pela falta, pela lacuna, pelo espaço que eu sinto ecoando no SER quando falo
desse assunto: religião. Pessoalmente, eu cultuo muitas entidades, deuses e
deidades. Acredito e confio em muitos ritos de muitas religiões diferentes.
Tenho minhas preferências e minhas ressalvas em todas elas. Mas mesmo assim, o
que está faltando? Por que nunca é suficiente?
Devo esclarecer aqui,
que a partir deste ponto, estarei tratando de algo que não se pode encontrar em
qualquer mundo espiritual que possa ou não existir. Algo que não diz respeito
às religiões institucionalizadas ou mesmo com qualquer deus ou deusa que já
ouvimos falar. Vou tratar aqui da religiosidade no sentindo de “re-ligação”,
isto é, a “re-ligação” com nós mesmo, com o EU.

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